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sexta-feira, 21 de julho de 2017

VELHAS ANGÚSTIAS NATALINAS (conto)

             Os moradores da vila já fecharam suas janelas. Hoje, numa noite muito fria, quase não consigo me aquecer. Consegui os últimos finos gravetos para a lareira. Lá fora o vento corta a alma e a humanidade nossa.
            Estamos minha avó e eu aqui. Sinto tanta saudade da minha irmã...
            - Dear, você está aí?
            - Sim, grandma! Estava pensando e escrevendo algumas coisas.
            - Me dê um pouco de água, por favor.
            Minha avó precisa muito de mim. Ela não anda nem enxerga. Tanta coisa ruim aconteceu. Jamais vou abandoná-la.
            Certo dia, ela saiu para conseguir dinheiro com suas consultas místicas. Ela estava na cidade, ou melhor, nas ruas da cidade, consultando quem passe por lá. Puxou uma última carta para um senhor que havia requisitado os serviços dela. Lá estava, um arcano maior, a carta de número dezoito, a lua, os inimigos ocultos. Repentinamente, dois cães enormes surgem e atacam minha avó. Os animais estraçalharam as pernas dela. Ela ficou gravemente ferida. Dias depois,...
            - Simone, querida, traga outra coberta.
            - Sim, vovó! Aqui está! A senhora vai ficar mais quentinha agora. Tenta dormir um pouco.
            - Obrigada, minha neta. Temos fogo na lareira para a noite inteira?
            - Temos, sim, grandma. Não se preocupe.
            - Essa é a nossa pior noite de Natal. Não é mesmo, Simone?
            - Imagina, vovó. Estamos juntas. E sempre vamos estar. Eu, a senhora e a Tereza somos uma família eternamente.
            - Obrigado por você existir. Vou tentar dormir um pouco. Você escrevia no seu diário. Não é? Continue, dear.
            Em poucos instantes, minha avó dormiu. Queria que ela estivesse bem e com saúde. Queria dar as minhas pernas para ela poder andar. Quem me dera poder presenteá-la hoje com a visão. Queria fazer o mundo girar ao contrário e salvá-la do ataque dos cães. Seriam eles os inimigos ocultos do tarô? Bobagem! Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Penso que não. Só sei que aquele foi um dia terrível pra todos nós.
            Dias depois, minha avó já não andava mais. Teve as pernas amputadas do joelho para baixo. Pra mim, é tão torturante lembrar essas coisas diariamente. Mas hoje, nessa fria noite de Natal, minha memória parece estar sendo martelada com força. Martela!!!
            Aqui na vila tudo parece tão distante da felicidade que moldura os rostos das pessoas que passeiam pelo Central Park.
            O frio nos castiga intensamente. A sopa rala já não aquece nossos corpos. Tenho medo da morte. Ainda tenho medo da morte! Tenho medo também de não continuar a escrever o que sinto, pois minhas mãos estão trêmulas. Fico pensando tantas coisas. Esse é um Natal sem luz pra mim.
            Minha avó não vê a luz do dia faz poucos meses. Um câncer tirou a visão dela. Cega, mas sempre a orar, ela fica na cama aparentemente conformada com a sua desgraça. Ela não merecia isso. Sempre que preciso chorar, peço aos anjos do céu que não permitam que ela ouça a minha dor, a dor que sinto tão devastadoramente no meu coração oprimido. Tento digerir a minha própria angústia engolindo-a a seco, empurrando todo o meu desgosto para o fundo da minha alma esquecida por Deus.
            Quando me sinto muito desesperada, fixo o meu olhar num quadro que temos aqui na sala. É um quadro branco com uma inscrição: IX. Alguns dizem que o número nove é o número da sabedoria e, também, da solidão. Às vezes fico pensando, brincando com essas coincidências da vida. 18 vira 1 + 8. E 1 + 8 é igual a 9. Minha família sempre acreditou no poder dos números. Que sentido existe nisso? Poder? Queria tanto poder...
            - Simone, pode vir aqui?
            - Claro, vovó! O que houve?
            - Quando eu tinha pouco menos da sua idade, gostava tanto de ver os fogos de Natal. Eu conheci tantos lugares, viajei tanto. Comecei a lembrar da minha vida. Se importa de me ouvir um pouco?
            - Não, imagina. Diga o que sente. – apertei docemente a sua mão fria.
            - Quando estamos aquecidos e felizes na nossa casa, não pensamos nos outros. A neve que cai é linda, é branca, encantadora. Mas o frio chega a queimar aqueles que não têm aquecedor nem isolamento nas paredes. É tão bom comemorar a vida, e tão triste brindar a morte anunciada. Eu vivi confortavelmente em vários lugares. Vi as pontes de aço unindo os dois lados de um rio. Acho que acabei enterrando todos os meus melhores sonhos às margens do Mississipi.
            - Grandma, o que a aflige tanto? Tudo vai ficar bem. Não se preocupe.
            - Queria ver as luzes de Natal novamente. Tudo agora é escuridão e penúria. Quando eu morrer, não quero que fique aqui, honey. Vá embora!
            - Vovó, não fale dessas coisas agora.
            - Minha neta querida, quando menos esperamos, a morte vem. Nossos ídolos continuam sendo Lincoln e Santa Claus. Já pensou nisso? Que engraçado! Geralmente, a morte chega quando estamos felizes. E eu estou feliz!   
- Feliz? Mas como? A senhora está feliz com a vida que levamos tão miseravelmente? 
            Minha avó sorriu serenamente. Queria muito encontrar uma maneira de registrar nesse caderninho o sorriso dela. Foi um momento lindo. Foi lindo vê-la feliz depois de tanto tempo. Ela alcançou a felicidade, suponho, ao perdoar seu próprio coração angustiado. E assim ela sorriu. Feliz, sem culpa, luminosa e iluminada.
            Queria tanto poder me perdoar! O Natal é uma data muito especial, que nos faz pensar na vida que temos. Já chorei tanto hoje por tantos motivos diferentes. Chorei de fome, de dor, de tristeza, angústia, saudade.
            A noite está ficando mais escura e mais fria. Começo a rasgar uma Marie Claire para manter o fogo da lareira aceso.
            Bem ao longe consigo ouvir lobos uivando. Sinto um frio mais intenso, descabido, um medo estranho. Fecho os olhos por um instante, respiro profundamente. Dá para perceber que o vento lá fora anuncia mais tristeza.
            Fui verificar se minha avó estava aquecida. Peguei a mão dela e percebi que estava gelada. Nossa! Infelizmente não temos mais cobertas. Deitei-me sobre ela para tentar passar um pouco de calor. Estranho que faz horas que ela está dormindo. Que frio terrível! Que Natal deprimente. Logo percebi que a respiração dela estava bem fraquinha.
            Disse a ela suavemente:
            - Granny, a senhora tem toda a razão. E agora me comprometo a me perdoar. Nossa vida já foi muito melhor do que é agora, eu sei. Mas nem por isso vamos nos entregar a essa angústia, a essa amargura. A senhora me conduziu até aqui com muita sabedoria. Esse será o nosso último Natal na miséria, na escuridão, eu prometo!
            Minha avó continuava com aquele lindo sorriso no rosto. Mas a respiração dela continuava muito fraca. Não! A respiração dela não mais está fraca. Ela não está mais respirando. Não mais...! Não!!!

            O fogo da lareira apagou-se para sempre.


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